quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

EPÍLOGO. CENTRAL PARK (DO OUTRO LADO DA PONTE)



A noite estava peculiarmente quente para um fim de verão.
Karen mantinha o ritmo enquanto percorria a calçada do Central Park.
Ela corria todos os dias no parque, mas sempre ao amanhecer, contudo, as últimas semanas foram de trabalhos intensos na revista.
O chefe havia anunciado uma promoção big para quem conseguisse aumentar as vendas.
Somente 03 jornalistas estavam no páreo: Joanne, Simon e Karen.
A jovem de 25 anos trabalhava na revista Lipstick, no coração de New York, como jornalista de moda júnior. O salário ainda era muito baixo e os custos para se manter na Big Apple eram altos, ainda mais para ela, que não só gostava de moda, mas também de ser parte dela.
Então porque ela se mantinha na profissão se o salário era baixo? Duas coisas: inveja e Anna Gio.
Todos sonhavam em trabalhar na revista mais badalada de New York. Então, quando Karen conseguiu o emprego, aos 22 anos, seus pais se encheram de orgulho e seus “amigos” de inveja.
E o principal motivo da inveja era Anna Gio, editora chefe da revista.
Rica, chique e influenciada.
A promoção seria para editor da revista, logo todos ali não estavam somente de olho no salário, mas no status.
Karen não era diferente.
Tudo isso passava pela cabeça da jovem corredora.
Precisava se esforçar mais, conseguir boas matérias, furos de reportagem, se destacar. Além disso, precisava ser estonteante.
Ninguém podia trabalhar em uma revista de moda e se vestir de qualquer jeito.
Como ficar deslumbrante se tinha que gastar todas as forças para conseguir se destacar? Correr era uma opção. Se manter em forma.
Correr era a única coisa barata o suficiente para lhe fazer esquecer dos problemas (ou coloca-los em ordem).
Também era algo que lhe remetia a seu pai. O Sr. Howard dizia que correr era o melhor exercício, para o corpo e alma.
A estrada não julga e está sempre a sua espera.
Contudo, as pessoas julgam e em momentos como estes, Karen não poderia dar azo ao azar. Colocar qualquer roupa para correr? JAMAIS! Isso tinha acabado.
Imaginem as manchetes: EDITORA DA LIPSTICK VESTE MACY'S
O simples pensamento já fazia Karen tremer. Só assim ela percebeu que acabou entrando no Central Park sem perceber.
Parou repentinamente.
- Como vim parar aqui! – falou para si.
Os pensamentos a levaram para dentro do parque. Seu pai sempre disse para não ir ao Central Park a noite, principalmente sozinha.
Ela olhou em volta, mas não reconhecia nada. Por mais que conhecesse o lugar, a noite tudo fica esquisito.
A adrenalina começou a percorrer o seu rosto.
Pegou o celular para ver a localização.
- Merda! – sem sinal.
Ela começou a voltar por onde veio. Fazia sentido em sua cabeça.
O caminho era estreito e escorregadio.
Como vim parar aqui! – pensou.
Passos rápidos. Silêncio. Somente a sua respiração, rápida e ofegante.
Começou a sentir um frio na espinha.
Suas mãos estavam nervosas. Apressou o passo.
Finalmente chegou em um lugar mais largo.
Ufa – ela respirava mais aliviada.
Não parou. Continuou o passo apressado. Olhou para o celular: sem sinal.
- Meu Deus! – praguejou.
Sentia que alguém a observada.
Acelerou o passo novamente.
Começou a olhar para trás. Um vulto ao longe.
Coração acelerou. Adrenalina.
O vulto se aproximava.
Ela acelerou.
Um passo e olhava para trás. Mais um passo e olhava para trás
Em dado momento, ela acabou tropeçando, caindo no mato e rolando até uma outra rua.
Percebeu que estava na East Dr., próximo ao Mayor John Purroy Mitchel Memorial.
- A saída! – ela exclamou.
Levantou rapidamente e saiu correndo, cruzando a rua para ficar do lado direito, longe do vulto.
Contudo, ao atravessar a pista, algo lhe chamou a atenção na beira da estrada. Parecia.... um parte de pernas?! – pensou.
Uma pessoa comum, em apuros, correria.
Um jornalista, louco por um furo, para e verifica.
Karen parou, no meio da estrada. Olhou para todos os lados.
Ofegante.
Se aproximou devagar. Olhando para todos os lados. Pegou o celular e começou a tirar fotos, esquecendo de verificar o sinal.
Só consegui ver os pés (tênis de corrida) e os tornozelos. O restante do corpo estava escondido por um arbusto.
Puxou as pernas.
A imagem era aterrorizadora.
O corpo de uma mulher, seminua, machucada e morta.
Karen começou a tirar as fotos. Mãos tremulas. Nunca tinha visto um corpo tão perto.
- Posso não conseguir uma promoção, mas uma manchete em outro jornal sim....
Seu pensamento foi interrompido por um par de mãos que a seguraram por trás.
Tinha se esquecido do vulto. Ele era real.
Ela tentou lutar. Gritar, mas o agressor era mais forte.
Karen chuta as partes baixas do agressor, que a larga e cai de joelhos Ela também cai. Tenta levantar, mas o agressor a atinge com uma pedra em sua cabeça.
Ela cai de bruços. Ainda estava acordada, mas sangrando.
Se arrasta, mas uma mão muito forte agarra o seu tornozelo, puxando-a.
Karen tenta gritar, mas não tem força.
Um soco e tudo se apaga.



terça-feira, 17 de dezembro de 2024

As Sombras de Zyrion (CONTOS DA MEIA-NOITE)

 


No canto mais esquecido da galáxia de Andarion, o planeta Zyrion orbitava um sol moribundo, banhado por uma luz pálida e fria. A superfície do planeta era um mar de desertos negros e montanhas afiadas, com tempestades elétricas constantes que riscavam o céu com raios lilases. Para a tripulação da nave Aurora II, Zyrion era um mistério que precisava ser resolvido.

— Estação central, estamos pousando em Zyrion. Condições precárias, mas controladas — informou a capitã Lira Kael, ajustando os controles enquanto a nave tremia.

A missão da Aurora II era clara: investigar a origem de um estranho sinal captado meses atrás, um som contínuo e profundo que ecoava como um canto distante. Alguns acreditavam ser um pedido de socorro, outros suspeitavam que poderia ser algo mais sombrio.

A nave aterrissou com dificuldade, levantando uma nuvem de poeira negra. Lira ajustou o capacete de seu traje e se levantou.

— Equipe Alpha, comigo. Equipe Beta, fiquem na nave. Se algo der errado, vocês sabem o que fazer.

Ao descerem, Lira e sua equipe — composta pelo engenheiro Darik, pela cientista Zara e pelo soldado Kellen — foram recebidos por um silêncio absoluto. Nem mesmo o som do vento cortava o ar. O deserto ao redor parecia morto, mas os monitores detectavam algo estranho: níveis altíssimos de energia concentrados nas montanhas ao norte.

— É de lá que o sinal está vindo — disse Zara, apontando para o horizonte.

A caminhada foi lenta e tensa. As rochas pareciam mais afiadas de perto, como lâminas esculpidas por alguma força alienígena. Conforme se aproximavam da origem do sinal, o som que antes era um eco distante começou a tomar forma. Era quase como uma melodia hipnotizante, cheia de notas graves que vibravam no peito de cada um.

— Isso não é natural — murmurou Kellen, segurando firme seu rifle de plasma.

No topo da montanha, encontraram algo que ninguém esperava: uma estrutura monumental, metade enterrada na rocha. Parecia um templo, com paredes feitas de um material reluzente e esculpido com símbolos que brilhavam em um tom prateado.

— Isso é tecnologia avançada — disse Darik, examinando os símbolos. — Mas não é de nenhuma civilização conhecida.

A entrada do templo estava aberta, como se os esperasse. Contra todas as advertências, Lira decidiu avançar.

Lá dentro, a gravidade parecia diferente, e o ar era opressivo. À medida que desciam os corredores do templo, o som ficava mais alto, quase insuportável. Finalmente, chegaram a uma sala ampla, iluminada por uma luz pulsante que emanava de um pedestal no centro.

No pedestal, havia um cristal negro, flutuando e girando lentamente. O som vinha dele.

— Cuidado! — alertou Zara. — Está emitindo uma energia incompreensível.

Mas antes que pudesse analisar melhor, Darik, atraído pela luz do cristal, tocou a superfície reluzente. Num instante, uma onda de energia foi liberada, derrubando todos no chão.

Quando Lira se levantou, viu Darik parado, mas algo nele estava errado. Seus olhos brilhavam num tom prateado, e sua voz tinha um tom metálico.

— Vocês não deveriam estar aqui — disse ele, ou o que quer que tivesse tomado conta de seu corpo.

Lira ergueu sua arma, mas hesitou.

— Quem é você?

O ser respondeu, sua voz ecoando pelas paredes do templo:

— Nós somos os Guardiões de Zyrion. Milênios atrás, selamos este cristal para proteger o universo. Ele não deve ser perturbado.

— Não queremos perturbar nada — respondeu Lira. — Estamos apenas investigando o sinal.

— O sinal era um aviso. Agora que vocês estão aqui, o equilíbrio está ameaçado.

A luz do cristal começou a pulsar mais rápido, e as paredes do templo tremiam.

— Precisamos sair daqui agora! — gritou Kellen.

Lira tentou convencer a entidade a deixá-los ir, mas Darik, ainda controlado, ergueu a mão e o templo começou a desmoronar.

— Fugi-los. E nunca mais voltem.

A equipe correu pelos corredores enquanto pedras caíam ao seu redor. Quando finalmente alcançaram o exterior, o templo inteiro afundou na montanha, deixando apenas silêncio e poeira no ar.

De volta à Aurora II, Lira olhou para o planeta pela janela enquanto decolavam. Eles haviam sobrevivido, mas algo dizia que Zyrion guardava segredos que não deveriam ser revelados.

E, no espaço, o som do cristal continuava a ecoar, como um aviso de que algo muito maior ainda estava por vir.

O Escritório Invisível

 

Era mais um dia no trabalho. A mesma rotina: a mesa cheia de papéis que ninguém nunca lia, os e-mails que se acumulavam em um ritmo impossível de acompanhar, e a impressão constante de que, apesar de todo o esforço, nada realmente mudava.

Luísa havia começado naquela empresa cheia de sonhos. Era jovem, cheia de ideias e acreditava que podia fazer a diferença. Lembrava-se de como era fascinante imaginar projetos que impactariam vidas, pensar em soluções criativas e ver o brilho nos olhos dos colegas quando compartilhava suas ideias.

Mas os anos passaram. E, com eles, veio a realidade. As reuniões se tornaram um desfile de vaidades, onde as melhores propostas eram enterradas por egos inflados. Os projetos, que antes pareciam promissores, agora eram abandonados à primeira dificuldade, sufocados por cortes de orçamento ou burocracias sem fim.

Luísa começou a perceber um padrão. Quanto mais tentava inovar, menos era ouvida. Seu entusiasmo, antes contagiante, agora parecia incomodar. Era como se as paredes do escritório tivessem aprendido a absorver suas palavras antes que chegassem aos outros.

Certa vez, passou semanas preparando uma apresentação. Estudou, pesquisou, dedicou horas extras para garantir que cada detalhe estivesse impecável. No dia da reunião, seu chefe sequer olhou para os slides. "Boa ideia, mas temos outras prioridades", disse ele, antes de mudar de assunto. Foi nesse momento que Luísa sentiu a primeira rachadura em sua motivação.

Os dias se tornaram automáticos. Ela chegava, cumpria suas tarefas e ia embora. Havia um peso invisível que a acompanhava, uma sensação constante de que estava gastando suas energias em algo sem propósito. O brilho em seus olhos deu lugar a um cansaço que nem o fim de semana conseguia aliviar.

Mas o que mais doía não era a rotina repetitiva ou a falta de reconhecimento. Era a perda de si mesma. A Luísa sonhadora, aquela que acreditava em seu potencial, parecia uma lembrança distante.

Até que, em um dia qualquer, enquanto esperava o elevador no fim do expediente, ouviu uma conversa entre dois estagiários. Falavam com paixão sobre um projeto que estavam criando juntos, cheios de entusiasmo e esperança. Luísa se viu neles e sentiu uma pontada de saudade. Não do trabalho, mas da versão de si mesma que ainda acreditava.

Naquela noite, ao chegar em casa, olhou para o espelho e se perguntou: "Por que continuo aqui?" Não havia resposta fácil. O medo do desconhecido pesava. Mas, ao mesmo tempo, havia uma fagulha que começava a se acender novamente.

A frustração profissional, percebeu, era uma espécie de alerta. Uma maneira de a vida dizer que era hora de mudar, de buscar novos caminhos. Talvez não fosse tarde para reencontrar a Luísa que ela costumava ser.

No dia seguinte, foi para o trabalho como sempre. Mas algo havia mudado. Não no escritório, mas dentro dela. E isso, ela sabia, era o começo de algo novo.

O Barbeiro de Sevilha (Detetive Machado Livro 1)

 ME CHAME APENAS DE MACHADO.



Em 
O BARBEIRO DE SEVILHA acompanhamos como o detetive particular Machado tentando desvendar o desaparecimento da filha da Sra. Josefa, uma grã-fina da Zona Norte carioca.
Machado é um policial civil inativo, cuja vida financeira não anda muito bem. Além disso, alguns anos atrás ele teve sua vida virada de ponta cabeça e até hoje não lida direito com a situação a qual se encontra. No entanto, a visita de uma madame ao seu nada gracioso escritório dá uma esperança de certo alívio financeiro. A partir de então ele começa uma busca implacável para encontrar a menina.
O livro 
O BARBEIRO DE SEVILHA é a primeira aventura do investigador particular Machado e o primeiro romance policial do escritor e advogado carioca Wellington Silva.

Wellington da Silva de Paula é advogado e escritor. Possui livros de direito, dentre eles "A banalização do dano moral". Também se aventura nos romances jurídicos, como no livro "Manual de sobrevivência do advogado", aproximando os leitores a carreira da advocacia.



segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Fuga na Linha Vermelha (CONTOS DA MEIA-NOITE)

 


Era final de tarde no Rio de Janeiro, e o céu alaranjado começava a escurecer sobre a Linha Vermelha. O trânsito estava carregado, como sempre, mas ninguém prestava atenção no sedã preto que cruzava as pistas em alta velocidade, cortando os carros como uma navalha. No volante, Júlio Rocha segurava firme o couro desgastado do volante, o coração batendo mais rápido do que o motor do veículo.

— Dá pra ir mais rápido? — gritou Dudu, seu parceiro, olhando nervoso para o retrovisor.

Atrás deles, três viaturas da Polícia Civil seguiam em perseguição cerrada, as sirenes explodindo em um coro de caos. Júlio era conhecido nas ruas como “Rochinha”, um piloto de fuga que raramente era pego. Mas aquela noite era diferente. Alguém os havia dedurado, e o assalto ao carro-forte em São Cristóvão tinha dado muito errado.

— Fica quieto! — Júlio respondeu, desviando de um caminhão com um movimento arriscado. As rodas cantaram, quase jogando o carro para fora da pista.

Os policiais da frente, liderados pela inspetora Camila Dias, não tiravam os olhos do sedã. Ela segurava o rádio enquanto gritava instruções:

— Atenção, cerquem a saída 8! Eles vão tentar pegar a Dutra pra fugir!

Camila conhecia o perfil de Júlio Rocha. Ele era rápido, mas não pensava a longo prazo. Um criminoso com habilidade no volante, mas pouca estratégia.

Júlio viu as viaturas se aproximando. O combustível estava no fim, e o carro começava a falhar.

— A gente não vai conseguir! — Dudu berrou novamente, tirando uma pistola da cintura.

— Guarda essa arma! Se você atirar, a gente vira peneira! — gritou Júlio, com os olhos fixos na estrada. Ele tinha um plano: pegar o viaduto que cruzava o Complexo da Maré e sumir pelas vielas. Ninguém conseguiria segui-los por lá.

Mas Camila antecipou o movimento.

— Atenção! Eles vão cortar para a Maré. Dois carros seguem na retaguarda, o resto bloqueia as entradas!

As sirenes aumentaram, e Júlio percebeu que estava encurralado. Ele virou o volante bruscamente, saindo da pista principal e entrando em uma rua estreita e mal iluminada. As pessoas nos arredores correram para dentro de casa ao ouvir os pneus cantando. O sedã preto guinchava a cada curva fechada, raspando nos muros de tijolo.

— É agora ou nunca! — disse Júlio, vendo a última saída antes do carro morrer de vez.

Mas Camila foi mais rápida. O som de um helicóptero da polícia ecoou acima deles, e a luz do holofote iluminou o carro em fuga.

— Acabou, Rocha! — gritou Camila pelo rádio. — Sai do carro com as mãos para cima!

Júlio freou bruscamente, derrapando até o carro bater num poste. O impacto fez o airbag disparar, deixando tudo em silêncio por um instante. A porta do lado do passageiro abriu, e Dudu saiu correndo, só para ser derrubado por dois policiais que surgiram na esquina.

Júlio abriu a porta devagar, com as mãos erguidas. Ele estava cansado, sujo e sabia que não tinha mais para onde ir.

Camila se aproximou, arma em punho.

— Até que enfim te peguei, Rochinha.

Ele sorriu, com um corte no lábio.

— Não foi por falta de tentativa.

Camila fez um sinal para os outros agentes algemarem-no. Enquanto ele era levado, as luzes vermelhas e azuis das viaturas refletiam nas paredes da favela. Júlio olhou para o céu, que agora estava escuro, e pensou no quanto aquela liberdade momentânea havia valido a pena.

Naquela noite, as ruas ficaram mais silenciosas. A perseguição havia acabado, mas para a polícia e os criminosos, aquele era apenas mais um capítulo de uma guerra que nunca terminava.

Tempo Perdido


O tempo se esvai como areia na mão,
grão por grão, sem chance de voltar.
É um rio que corre sem direção,
levando os sonhos para o mar.

Quantas horas gastei no vazio,
quantos instantes deixei escapar?
Fiz do silêncio meu velho amigo,
mas ele nunca quis me consolar.

Busquei no amanhã o que já passou,
esqueci do presente que estava aqui.
E no vão dos dias, só restou
o peso do "se" que não vivi.

O tempo perdido é sombra que fica,
é eco de passos que não dei.
É saudade muda, que grita,
pelos caminhos que nunca trilhei.

Mas se ainda respiro, posso mudar,
abraçar o agora com nova vontade.
Pois o tempo perdido não vai voltar,
mas o que resta ainda é liberdade.

O Silêncio que Fica (CRÔNICA)


A perda chega como um visitante inesperado. Ela não bate à porta nem avisa com antecedência. Apenas invade, com sua presença pesada e incômoda, mudando tudo de lugar. Naquele dia, foi como se o mundo tivesse desacelerado. O som das vozes ao redor parecia distante, como se viesse de um rádio mal sintonizado, e o relógio insistia em marcar um tempo que já não fazia sentido.

Perder é estranho. É como um buraco que se abre dentro de você e, por mais que tente preencher com lembranças, palavras ou até lágrimas, ele permanece lá. Um vazio que ecoa.

Lembro do cheiro de café na cozinha naquela manhã. Era como qualquer outro dia, mas não era. As notícias chegaram com a frieza de uma mensagem curta. Cinco palavras que mudaram tudo. Primeiro, veio a descrença. Depois, a dor — não imediata, mas crescente, como uma onda que se aproxima lenta, mas inexorável, até te engolir por inteiro.

A casa, tão cheia de histórias e risos, parecia maior naquele dia. Cada canto parecia guardar um pedaço do que foi perdido. O som do riso que não se ouvia mais, o eco de passos que não retornariam. Até os objetos, inanimados, pareciam testemunhas silenciosas de uma ausência gritante.

Ao caminhar pelo quarto, vi a velha poltrona que tantas vezes abrigou conversas sem pressa. No armário, as roupas ainda pendiam como se esperassem por um próximo dia qualquer. Mas os dias "qualquer" tinham se tornado raros. Tudo agora era carregado de significado.

E então veio o silêncio. Aquele silêncio que é mais alto do que qualquer grito. Ele sussurra todas as palavras que não foram ditas, todas as despedidas que não aconteceram, todos os momentos que poderiam ter sido.

Mas o tempo, com sua teimosia, segue. Ele não pergunta se estamos prontos. Apenas avança, empurrando-nos com ele. E, no meio da dor, descobrimos que a perda não desaparece. Ela muda de forma. Transforma-se em saudade. E a saudade, essa criatura estranha, é ao mesmo tempo dor e conforto.

Com o passar dos dias, comecei a encontrar vestígios de consolo nas pequenas coisas. Na memória de um sorriso, em uma música que sempre fazia rir, em um prato favorito preparado com a intenção de sentir a presença novamente, mesmo que só por um instante.

A perda ensina que viver é se despedir muitas vezes, mas também é carregar quem amamos em cada gesto, cada pensamento, cada decisão. Não, não é fácil. Mas, de algum jeito, o amor deixa marcas que a ausência nunca consegue apagar.

E assim seguimos, aprendendo a conviver com o silêncio que fica.