sábado, 17 de março de 2018

…MAS O CRIME NÃO TEM HORA… (+18)

(cont.: ERA UMA NOITE CHUVOSA DE SEXTA-FEIRA...)

Chovia forte na Cidade do Rio de Janeiro.
Machado subia as escadas do sobrado, em direção a quitinete. Os 30 segundos que ele levou para fechar o carro e abrir a porta da rua o deixaram encharcado.
Eram 02 horas da madrugada de sábado, ele estava cansado, estava voltando do trabalho, tudo que queria era se largar no seu sofá-cama.
A sala estava às escuras. Ele ligou o interruptor. O seu travesseiro e lençol já estavam posicionados em cima do sofá-cama. Machado sorriu.
Como era bom ter alguém para cuidar da gente! – pensou.
Ele pegou uma toalha de rosto no banheiro e foi até o quarto enxugando o cabelo. Ao abrir a porta, Machado viu seu pai dormindo profundamente. Caminhou levemente, cobriu o pai com o lençol fina, pois não estava tão frio, nem tanto calor. Fez um carinho na cabeça do pai antes de beija-la.
- Durma bem meu velho! – sussurrou.
Saiu do quarto sem fazer barulho, foi até a cozinha, pegou uma cerveja, se espreguiçou e largou o corpo no sofá.
Estava realmente cansado. Se não estivesse molhado dormiria sem tomar banho mesmo.
Colocou a garrafa no chão, encostada no sofá-cama ainda desarmado. Recostou-se, esticando as costas. Quase dormiu.
Pegou a garrafa, bebeu um gole, enquanto retirava o coldre com a sua pistola da cintura. Depois do gole, tirou o celular e distintivo da policia do bolso. Retirou o tênis, usando os próprios pés.
Ao terminar de beber e levantar para ir tomar banho, isso depois de longos minutos e várias pescadas de sono, o celular toca.
- Eu não acredito! – resmungou com a voz embargada de sono.
Pegou o telefone e olhou a identificação: Borges.
- Você me ama mesmo né! – reclamou Machado ao atender.
- Já tava dormindo benzinho!? – sacaneou o colega.
- Borges, boa noite!
- Perae!
- O que você quer?
- Se liga! Apareceu uma parada forte aqui!
- Não dá pra esperar o meu plantão?! – a reclamação não saiu com a entonação que Machado queria. Era o sono.
- Cara, duplo assassinato!
- Rio de Janeiro, Borges! Qual a novidade?!
- Não posso te dar maiores detalhes por telefone. – ele abaixou o tom de voz, quase um sussurro. – Tem possibilidade de traficante e policial envolvido. Prendemos um suspeito, mas o advogado tá aqui e parece que a parada vai pegar fogo.
- Tá! Me Deixa dormir um pouco e assim que acordar eu vou pra delegacia! – falando Machado.
- Só quero te preparar!
- Sei! – sarcástico.
Machado desligou o celular, tomou um rápido banho e capotou no sofá-cama, desarmado mesmo.
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Borges desligou o celular e voltou para sua mesa, onde Claudio o aguardava.
- Pronto, falei com o meu parceiro e mais tarde ele voa pra cá. – falou Borges.
- Ótimo! Eu vou pra casa então. Tô morto! Pela manhã, vou bater uma petição e vou ao plantão do tribunal.
- Ok!
Os dois levantaram.
- Borges! – falou Claudio – Só me faz um falar. – ele chegou mais próximo do policial, falando baixo – Separa o Henrico. Não deixa ele misturado com ninguém!
- Ah, pode deixar. – falou baixo também. – Ele tem ensino superior. Vou deixar ele reservado.
- E.. – ele olhou para os lados – não deixa nenhum outro policial chegar perto dele.
Borges olhou para o advogado com um olhar questionador.
- Vocês ouviu o relato dele! – retomou o advogado – Ele disse que a menina tem um amante policial e o Dono tem os contatos dele..
- Mas não aqui! – falou Borges.
- É melhor prevenir!
- O doutor fica tranquilo. Seu cliente tá seguro.
Assim espero! – pensou Claudio.
Claudio não tinha alternativas. Se despediu do policial e partiu para casa.
Ainda chovia no Rio de Janeiro.
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Machado acordou com o cheiro de café fresco. Sinal que dormiu demais.
Ainda com os olhos marejados, pegou o celular que estava carregando e olhou a hora: 09h15min.
- Que merda! – reclamou. Não era seu costume acordar tão tarde.
- Olha o palavreado feio menino! – o pai reclamou sabe-se lá de onde. – Nem tomou café e já tá esbravejando.
Machado sentou no sofá. Estava moído, pesado e amassado.
Viu o pai na cozinha.
- Chegar tarde, dormi mal e acordei péssimo não contam como virada de dia. Então, posso falar palavrão, ainda estou no dia de ontem.
- Poder não pode, ontem, hoje ou amanhã! – reclamou o pai – Não te ensinei essas coisas!
- Isso, Seu Machado, isso foi a vida quem ensinou! – disse o policial se espreguiçando.
- Então volta pra ela, pois não aprendeu direito.
Machado riu. Conversa de maluco às 9 da manhã.
O pai já estava na barbearia, quando Machado foi se despedir.
- Vai trabalhar de novo?! – falou espantado.
- Pois é! Agora o senhor entende o porquê do meu palavreado - ele estava de óculos escuros para esconder a cara de cansado. – Tchau! – beijou a testa do pai.
- Tchau então! Deus lhe proteja!
– Valeu!
- Se não for trabalhar amanhã, quer ir ao shopping?
Machado parou na porta da barbearia.
- A Dona Sonia te deu cano! – ele brincou com o pai.
- Tá vendo, não posso querer sair com o meu filho que sou sacaneado!
- Olha o palavreado! – brincou Machado.
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Borges atualizou Machado sobre o ocorrido com Henrico.
- Bom, então basta procurarmos a menina, pegarmos o depoimento dela e tudo certo? – concluiu Machado.
- Na teoria sim.
- Você tem o endereço dela?
- O acusado tem o endereço do amante.
- E porque você já não perguntou? Tava me esperando?! – reclamou Machado.
- Qualé! Deixei o rapaz dormindo!
Machado apenas revirou os olhos e respirou fundo.
Borges era um bom policial, mas a falta de atitude irritava Machado.
- Tudo eu! – resmungou baixo, enquanto seguia para a carceragem.
- Bom dia, Sr. Henrico! Eu sou o Machado e quero fazer uma pergunta.
Henrico estava sentado no chão. A cama intocada.
- Tudo bem? – perguntou Machado.
- E como poderia! – falou Henrico pausadamente, nitidamente abatido.
- Bom, apesar de tudo, o senhor está aqui! Seguro e vivo!
- Hummm
- Ok! – resignado – Qual o endereço que o senhor levou o amante da senhora.... – Machado olhou as anotações – Debinha?
- Foi em Botafogo, numa rua de vilas na São Clemente. – disse Henrico com muita dificuldade.
- Hummm. – Machado anotou – Obrigado! Vamos chegar algumas informações. Se a sua história estiver certa, tenho certeza que o delegado irá liberá-lo.
- Pra quê?! – Henrico falou olhando nos olhos de Machado.
- O senhor não quer ir pra casa?
- Pra ser morto? - Machado ficou observando o acusado – Eu sou um homem morto. É tudo questão de tempo. Aqui ou lá fora.
- Bom, se a sua história for verifica, o Dono não te matou, mesmo tendo oportunidade.
- Mas agora é diferente. Agora eu sou uma testemunha. Ele não contava que um advogado de bacana viesse me defender.
- Um advogado de bacana?!
- O seu colega não contou?! Ele quem trouxe o advogado!
- É mesmo?!
Hummm, quer dizer que o Borges tem algum acerto com advogado! – pensou Machado.
- Sim. Ele veio de madrugada. – completou Henrico.
- Certo. Vamos garantir que não lhe aconteça. – Machado não tinha total confiança nisso.
Se a história de Henrico fosse verídica, ele corria perigo.
- Eae?! Ele falou? – perguntou Borges quando Machado chegou à mesa.
- Sim. – falou Machado, pegando o distintivo e as chaves do carro. – Eu vou conferir o endereço. Você fica aqui.
- Como?! – indignado.
- Eu preciso de você aqui, de olho nele. – falou pausadamente.
Borges respirou fundo.
- OK! Eu fico de babá!
- Cadê o Wilson?!
- Folga!
- É! Sou eu que não tiro!
Machado virou em direção ao estacionamento. Nada de carro oficial, chamaria muito a atenção. E Machado teoricamente deveria estar de folga.
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Claudio terminou a petição inicial para Habeas Corpus, colocou a farda de advogado e saiu de casa. Como morava perto do Fórum, resolveu ir a pé.
Já na altura da Justiça do Trabalho, Claudio percebeu que duas figuras o acompanhavam.
Ao invés de seguir pela Avenida República do Chile, Claudio segue direto pela Rua do Lavradio em direção a Rua Visconde de Rio Branco. As figuras mantiveram o mesmo caminho.
O coração de Claudio começou a acelerar.
Calma! – pensou.
Ele mudou a direção, sentido Praça Tiradentes. Era sábado, mas o Centro já estava com movimento no Saara, então seria o lugar perfeito.
Sem alterar o ritmo, andou até a Avenida Sete de Setembro. Havia uma grande movimentação na frente do Teatro João Caetano.
As figuras continuavam em seu encalço.
Claudio passou entre o aglomerado. Os seguidores também. Isso deu uma vantagem para o advogado. Ele aproveitou para acelerar os passos. Estava com uma distancia considerável, então aproveitou.
Afrouxou a gravata e entrou na loja Palácio das Ferramentas. Era uma loja larga que possuía duas entradas, uma na Av. Sete de Setembro e outra a Rua da Carioca.
Assim que entrou na loja, Claudio saiu correndo. Saiu na Rua da Carioca, mas não parou de correr. Virou a esquerda e depois a direita, na Av. República do Paraguai e novamente a direita, na Rua Gustavo de Lacerda.
Entrou no hotel Formula 1.
Pegou fôlego e resolveu dar um tempo no restaurante. O café da manhã estava sendo servido.
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Machado chegou ao endereço passado por Henrico. Estacionou o carro em frente ao portão de uma rua fechada.
- Bom dia! – cumprimentou o porteiro.
- Bom dia! O senhor sabe quem mora na casa 5? – perguntou Machado.
- Desculpa senhor, eu não posso...
- Opa! – interrompeu o porteiro - Desculpas! Eu não me apresentei! – levantou o distintivo – Investigador Machado.
- Ah! Desculpe, Sr. Machado!
- Só, Machado!
- Bom... é... na casa 5, né?! – o porteiro ficou desnorteado.
- Sim!
- Bom, é um colega seu, acho!
- Policial?!
- Sim, mas Militar.
- Hummm – Machado olhou em volta – Ok! Eu vou dar um “oi” então! – ele sorriu, bateu no ombro do porteiro e entrou na vila, deixando o porteiro sem palavras.
Machado foi caminhando devagar, olhando em volta. Algumas crianças brincavam na rua. Ele sorriu.
Casa nº. 5
O policial apertou a campainha.
Nada.
Novamente.
Nada.
Machado coçou a cabeça, tirou os óculos escuros, olhou para os lados e tentou forçar a porta. Estava aberta.
Ao abrir a porta, Machado sentiu um odor peculiar, mas bem forte.
Entrou devagar.
A cena era digna de um filme. Um homem, pendurado pelos pés, com um corte que ia da virilha até o pescoço.
- Puta que pariu! – reclamou Machado.
Puxou o celular.
- Borges! Manda uma equipe pra cá!
- O que houve!
Machado olhou em volta.
- Quema de arquivo!
- A mulher?!
- Não! Essa se foi, mas o amante foi estripado.
- Caralho! Tá, tô mandando um pessoal! – disse e desligou.
Só espero que o Borges não venha, senão vai ter vômito para limpar também. – pensou.
Machado fechou a porta, não queria crianças vendo a cena. Ele rodou o imóvel com cuidado para não estragar nada.
Entrou no quarto. A cama estava bem bagunçada. Alguém jogou todas as roupas em cima da cama.
Ele foi até uma mesa que tinha do outro lado do quarto, ficando de costas para a cama.
Olhou com cuidado os documentos em cima da mesa. Pegou o celular e tirou fotos de algumas coisas que achou interessante.
Um movimento, imperceptível, no amontoado de roupas. Machado não percebeu nada. Estava entretido com os documentos.
De repente, pow! Uma dor alucinante na cabeça e tudo ficou escuro.
Machado caiu no chão.




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