sábado, 20 de janeiro de 2018

RESENHA: MELODIA MORTAL - O clickbait literário




Oi gente! Presta atenção!

Terminei de ler o livro Melodia Mortal dos autores brasileiros Pedro Bandeira e Guido Carlos Levi, e quero contar a minha experiência com a obra.

De acordo com a sinopse, a proposta do livro seria, à luz dos conhecimentos da medicina contemporânea, examinar os indícios possíveis sobre as mortes polêmicas de alguns grandes compositores da música clássica.

Para tanto, os autores contariam com a investigação de ninguém menos que Sherlock Holmes, auxiliado pelo seu fiel escudeiro, o doutor John H. Watson, que narra as aventuras do detetive na empreitada.

Sherlock Holmes é um personagem de ficção da literatura britânica criado pelo médico e escritor Sir Arthur Conan Doyle. Holmes é um investigador do final do século XIX e início do século XX. Sua primeira aparição foi em 1887 na revista Beeton's Christmas Annual na história Um Estudo em Vermelho, onde vemos o primeiro contato entre as personagens principais de todos os contos, Sherlock e Dr. Watson.

Contadas sob a visão de Watson, as histórias do detetive particular caíram nas graças dos leitores do mundo inteiro, consagrando criador e criatura.

Confesso que não havia lido nada da obra de Conan Doyle, apenas conhecia a personagem através das adaptações cinematográficas, um erro que reparei, lendo a sua primeira obra, Um estudo em vermelho, pois acredito que para analisar melhor o livro brasileiro, deveria saber as características originais das personagens, além da forma da escrita.

Então, teremos uma resenha dupla.

Nota: para saber mais sobre a obra de Sr. Arthur Conan Doyle, sugiro ouvir o NerdCast 471 do site Jovem Nerd.

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UM ESTUDO EM VERMELHOSir Arthur Conan Doyle
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Arthur Ignatius Conan Doyle foi um escritor e médico britânico, nascido na Escócia. Foi um renomado e prolífico escritor cujos trabalhos incluem histórias de ficção científica, novelas históricas, peças e romances, poesias e obras de não ficção.

Enquanto estudava, começou a escrever pequenas histórias; sua primeira obra foi publicada antes de completar os 20 anos, aparecendo no Chambers’s Edinburgh Journal.

Em 1882, Conan Doyle se juntou ao seu antigo colega de classe para formar uma parceria em uma prática médica em Plymouth, mas a relação entre eles provou ser difícil, e, logo, Conan Doyle passou a fazer suas práticas médicas independentemente.

Os negócios não tiveram muito sucesso e, enquanto aguardava por pacientes, voltou a escrever suas histórias. A sua primeira obra notável foi Um Estudo em Vermelho, publicada no Beeton’s Christmas Annual de 1887, e que foi a primeira vez em que Sherlock Holmes apareceu.

Holmes era parcialmente baseado em seu professor de sua época na universidade, Joseph Bell, a quem Conan Doyle escreveu: "É mais do que certo que é a você a quem eu devo Sherlock Holmes… Com base no centro de dedução, na interferência e na observação que ouvi você inculcar, tentei construir um homem.".

Narrado sob a perspectiva do Dr. John Watson (como em todas as obras de Conan Doyle), o livro seria conhecido hoje como uma história de origem, demonstrando como as personagens se conhecem e passam não só a dividir o mesmo teto (colegas de apartamento) como as aventuras investigativas. A historia traz um enigma terrível e invencível para a polícia, que pede auxílio a Holmes - um homem é encontrado morto, sem ferimentos e cercado de manchas de sangue. Em seu rosto uma expressão de pavor.

No romance, Dr. Watson acabará de voltar do Afeganistão, onde servia do exército britânico, sendo ferido em batalha, além de ficar bastante debilitado, forçando o seu retorno à Inglaterra.

Recebendo "auxilio" do governo, Watson busca uma moradia mais adequado as suas posses, visto que se encontrava muito debilitado para trabalhar.

Diante disto, Watson é apresentado a Holmes, visto que o mesmo também procura alguém para dividir um apartamento.

No começo, ambos mantinham uma certo respeito com as suas atividades, mas Watson não deixara de reparar nas excentricidades do seu colega. Na tentativa de descobrir a profissão de Holmes, Watson avalia os conhecimentos do detetive como:


  • Literatura: zero.
  • Filosofia: zero.
  • Astronomia: zero.
  • Política: escassos.
  • Botânica: variáveis. Conhece a fundo a beladona, o ópio e os venenos em geral. Nada sabe sobre jardinagem e horticultura.
  • Geologia: práticos, mas limitados. Reconhece à primeira vista os diversos tipos de solo. No regresso dos seus passeios, mostra-me manchas nas calças, e diz-me, pela sua cor e consistência, em que partes de Londres as conseguiu.
  • Química: profundos.
  • Anatomia: exatos, mas pouco sistemáticos.
  • Literatura sensacionalista: imensos. Parece conhecer todos os pormenores de todos os horrores perpetrados neste século.
  • Música: Toca bem o violino.
  • Educação Física: É habilíssimo em boxe, esgrima e bastão.
  • Direito: Tem um bom conhecimento prático das leis inglesas.


Além disso, lendo pude notar outras características de Holmes: inteligente, raciocínio rápido e lógico, determinado, domina diversas línguas, avesso a relações amorosas, gentil e respeitoso, apesar de demonstrar certo "desprezo" pela polícia britânica.

Holmes demonstra ser estudioso, mas somente naquilo que lhe é útil. O detetive acredita que a mente tem uma capacidade limitada para o armazenamento de informações, e aprender coisas inúteis reduz a capacidade de aprender coisas úteis.

O principal método de detecção intelectual de Holmes é o raciocínio dedutivo.

Dr. Watson, em contrapartida, não demonstra um vasto conhecimento, até mesmo na medicina, pouco acrescentando nas aventuras, servindo muito mais como ouvidos de uma pessoa que gosta de falar e registro.

Holmes informa ao seu colega qual a sua atividade profissional, sendo um basicamente consultor aos investigadores Gregson e Lestrade da Scotland Yard, apesar de nunca levar a fama pela resolução dos crimes.

Após isto, Watson, muito mais por curiosidade do que para auxiliar, é convidado por Holmes a lhe acompanhar na resolução do seu mais novo caso, onde ambos participariam diretamente da investigação, não só como consultores.

A história é bem redigida, com personagens bem definidos, principalmente nas suas personalidades.

Holmes não apresenta todos os estereótipos definidos nas adaptações cinematográficas mais clássicas, principalmente na linguagem e roubas (não usa chapéu de feltro). Ele é apresentado como jovem, muito inteligente, mas cortêz.

Fisicamente, podemos dizer que a série Sherlock, protagonizada por Benedict Cumberbatch é a que mais se aproxima da visão de Conan Doyle, mas a sua personalidade é diferente, pois na série Holmes é retratado como um gênio arrogante (tipo Sheldon do The Big Bang Theory).

Para uma adaptação fiel, acredito que Holmes deveria ter as características físicas de Cumberbatch, mas o comportamento demonstrado por Joaquim de Almeida no filme O Xangô de Baker Street, adaptação do livro homônimo escrito por Jô Soares.

A obra é curta, possui uma linguagem de fácil compreensão, acessível ao grande público, e a resolução do crime é plausível, sendo um excelente entretenimento, com gostinho de quero mais.

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MELODIA MORTAL – CARACTERÍSTICAS DO LIVRO
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Nos últimos anos veio à notícia que Sherlock Holmes passou a ser de domínio público, ou seja, os livros de Conan Doyle podem ser reeditados e adaptados livremente.

Assim, podemos esperar ai muitas adaptações literárias e cinematográficas sobre o detetive da Baker Street. Inclusive, em Março de 2018 estreia uma animação, Sherlock Gnomes, baseada no "universo" da animação Gnomeu e Julieta, onde Sherlock Homes será um gnomo de jardim, mas vivo.

O Brasil não fica atrás. Já tivemos antes a obra O Xangô de Baker Street, escrita pelo apresentador, escritor e humorista Jô Soares, mas no final de 2017 foi lançado o livro Melodia Mortal, escrita a quatro mãos por Pedro Bandeira com o médico Guido Levi.

Pedro Bandeira de Luna Filho é um escritor brasileiro de livros infanto/juvenis mais vendido no Brasil (vinte e três milhões de exemplares até 2012) e, como especialista em letramento e técnicas especiais de leitura, profere conferências para professores em todo o país. É autor da série Os Karas, O Fantástico Mistério de Feiurinha e de A Marca de uma Lágrima, entre mais de 80 títulos publicados. Recebeu vários prêmios, como o Troféu APCA da Associação Paulista de Críticos de Arte e o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, entre outros.

Há muito tempo não lia as obras de Pedro Bandeira e quando soube que o autor estava escrevendo um livro adulto e sobre Sherlock Holmes, logo pensei que gostaria de ler a obra.

Todavia, devo confessar que o livro é decepcionante.

A proposta inicial é que Sherlock Holmes investigaria a morte dos principais músicos da nossa era, mas não é bem assim.

O livro é dividido em 08 capítulos: 1. Necessária ouverture; 2. "Casta Diva" - Os mistérios da morte de Vincenzo Bellini; 3. Heroica Polonaise - Os mistérios da morte de Frédéric Chopin; 4. Réquiem para um anjo - Os mistérios da morte de Wolfgang Amadeus Mozart; 5. Tribunal de honra - Os mistérios da morte de Piotr Illitch Tchaikovsky; 6. Sinfonia Renana - Os mistérios da morte de Robert Shumann; 7. Fantasia coral - Os mistérios da morte de Ludwig van Beethoven; 8. Piccolo finale.

Também sob a ótica do Dr. Watson, justificando a sua presença no livro, pois no mais ele mostra-se completamente dispensável, mesmo para as questões de sua profissão.

O primeiro capítulo traz um resumo da relação Holmes/Watson, demonstrando como se conheceram e a grande admiração do médico com o detetive.

Neste capítulo minha decepção já é latente, pois Holmes não demonstrar ser o grande detetive que a fama informa, pois erra todas as suas deduções sobre fatos corriqueiros. Então, o leitor acaba pensando (pelo menos eu pensei): será que a genialidade de Holmes é tudo uma criação de Watson?

No capítulo 2 tudo isso desaparece. Logo, vemos que os autores estão mais perdidos do que cego em tiroteio, pois desconstroem a personagem para nada.

Assim como a maioria das obras de Conan Doyle, Melodia Mortal é dividido em contos, onde cada capítulo retrata uma investigação fechada.

Então, temos 06 contos, do capítulo 2 ao 7. O capítulo 1 e 8 servem como prólogo e epílogo, respectivamente. A meu ver, os capítulos 1 e 8 são dispensáveis.

Além da divisão em contos, uma caracteriza da obra é a divisão do tempo. Os autores narram às histórias de Sherlock e Watson em diversos períodos, onde o primeiro capítulo retrata fatos ocorridos no ano de 1890, e o livro termina com as personagens no ano de 1940, durante a 2ª Guerra Mundial, mas sem participação direta ou indireta.

Cada capítulo traz uma investigação, retrada no passado, ou seja, entre 1890 a 1940, mas ao final vemos uma Reunião da Confraria dos Medidos Sherlockianos, retrada entre os anos de 2016 a 2017, onde renomados médicos e fãs das histórias de Sherlock Holmes passam a debater as suas aventuras recém publicadas, apesar de retratadas no passado.

Percebemos que os médicos da Conferia vivem no mesmo universo que Sherlock, ou seja, diferente de nós leitores, para eles Sherlock realmente existiu, cujas histórias foram registradas e publicadas por Watson.

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MINHA EXPERIÊNCIA
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Diferente da obra de Conan Doyle, Sherlock é retratado completamente estereotipado, com uma arrogância infamada, apesar de ser gentil e cortêz com as pessoas.

Mostra-se um britânico chato, onde a cultura inglesa é sempre a melhor. Em muitas passagens Sherlock gosta de reforçar que as colônias britânicas são e sempre serão inglesas, além do seu descontentamento com a revolta Irlandesa e Escocesa.

Além disso, os contos não retratam a investigação de Holmes para elucidar a morte dos grandes músicos, como a sinopse informa. Cada conto retrata uma investigação aleatória de Holmes, mas com alguma ligação ao músico do capítulo. Por exemplo: No capítulo 7, que seria sobre a morte de Beethoven, a história se passa na Alemanha e a personagem que foi sequestrada encenaria a única opera escrita pelo músico alemão.

Sim, em cada capítulo Holmes discute a morte dos músicos, mas não há qualquer investigação, apenas teorias que ele tem conhecimento e gosta de debater.

Inclusive, estas teorias também são debatidas pela Confraria, nos tempos atuais e sob os métodos atuais. Contudo, ninguém pode chegar a uma conclusão, pois os músicos faleceram há muito tempo, sendo impossível realizar exames necessários para definir a causa mortes. Logo, o debate fica no mundo das suposições.

Esta parte da Confraria é completamente dispensável, pois, a meu ver, não acrescenta em nada a história. Apresenta personagens chatos e muito mais arrogantes que o próprio Holmes de Pedro Bandeira.

E mais, os médicos se dizem fãs de Holmes, mas não discutem sobre os contos, estão mais interessados em inflar os seus egos e debater suas suposições sobre a morte dos músicos.

Watson, por sua vez, demonstra ser um inútil, servindo apenas como testemunha do brilhantismo de Holmes e ouvido para o seu ego.

Melodia Mortal não cumpre o objetivo que propõem.

É bom? Sim, mas com muitas vírgulas. A investigação narrada por Watson é deveras interessante, pois quem gosta das histórias de Sherlock sempre quer mais e o livro traz mais investigações, diferentes das escritas por Conan Doyle. Contudo, o leitor tem que fazer um esforço muito grande para relevar muitos pontos das características de Holmes, Watson e da Confraria.

Por derradeiro, os autores ainda trazem a participação do psicanalista Sigmund Freud, mas de forma muito forçada.

Lambidas para vocês!🐾


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